Hecatombes
“Hecatombe” deriva do grego hekatómbē (ἑκατόμβη), termo que designava o sacrifício ritual de cem bois oferecido aos deuses, gesto que, longe de representar uma irrupção caótica da violência, constituía uma prática cuidadosamente regulada, simbólica e socialmente inteligível, por meio da qual a destruição em larga escala se tornava condição de preservação da ordem. Não se tratava apenas da magnitude da perda, mas de sua inteligibilidade moral, pois aquilo que era destruído o era segundo uma economia do sentido, na qual a violência, ritualizada e reconhecida, deixava de ser puro excesso para converter-se em mediação entre a fragilidade humana e a promessa de estabilidade cósmica.
À medida que o termo atravessa os séculos e se fixa no português como sinônimo de catástrofe, mortandade ou ruína coletiva, algo se desloca profundamente, embora nem tudo se perca. A referência explícita ao rito sacrificial se dissolve, mas permanece a intuição de que certas destruições não são meramente acidentais, tampouco inteiramente irracionais. Como observa Georges Minois, a história do mal no Ocidente raramente o pensou como simples desvio ou patologia, mas antes como elemento estrutural da ordem do mundo, algo que, paradoxalmente, contribui para sua inteligibilidade. O mal, longe de ser apenas aquilo que deve ser eliminado, frequentemente aparece como aquilo que organiza, delimita e, em certos contextos, legitima a própria ideia de bem.
Essa constatação torna-se particularmente relevante quando deslocamos o olhar para as hecatombes contemporâneas, que já não se apresentam, em geral, como eventos súbitos e espetaculares, mas como processos contínuos, graduais e amplamente naturalizados. Se na Antiguidade o sacrifício exigia visibilidade, solenidade e uma comunidade reunida em torno da perda, hoje a destruição opera de modo difuso, estatístico e administrável. Não cem bois imolados num único gesto ritual, mas cem corpos exauridos diariamente, cem subjetividades corroídas pelo imperativo da performance, cem formas de sofrimento psíquico absorvidas por discursos técnicos que as neutralizam moralmente ao convertê-las em dados, diagnósticos ou falhas individuais de adaptação.
É nesse ponto que as reflexões de Terry Eagleton, em Doce Violência, tornam-se decisivas. Eagleton insiste que a violência moderna raramente se apresenta como brutalidade explícita, preferindo formas sutis, legais e até benevolentes de coerção, aquelas que se exercem em nome da normalidade, da eficiência ou da racionalidade econômica. Trata-se de uma violência que não se percebe como tal porque se confunde com o funcionamento ordinário do mundo, uma violência que não destrói contra a ordem, mas a serviço dela. As hecatombes contemporâneas, nesse sentido, não escandalizam porque não rompem o tecido social, antes o mantêm coeso, ainda que à custa de perdas contínuas e silenciosas.
A hecatombe deixa então de ser exceção e se converte em paisagem, integrando-se à experiência cotidiana como pano de fundo permanente. O colapso ambiental tratado como externalidade inevitável, a precarização do trabalho elevada à condição de virtude moral, o adoecimento mental dissolvido em narrativas de resiliência e autocontrole compõem um cenário no qual o mal já não se manifesta como transgressão, mas como normalidade funcional. Como sugeriria Minois, o mal contemporâneo não precisa mais de figuras demoníacas ou de justificativas teológicas, pois se apresenta como simples consequência de sistemas que ninguém parece governar, mas aos quais todos se sentem obrigados a servir.
Talvez o aspecto mais perturbador desse quadro resida no fato de que habitamos hecatombes perfeitamente racionais, desprovidas de altar, sacerdotes ou deuses visíveis, mas não menos sacrificializadas. Já não se trata de apaziguar o transcendente, mas de garantir a continuidade de estruturas econômicas, políticas e simbólicas que exigem perdas constantes para se manterem operantes. Diferentemente dos antigos, contudo, já não dispomos de uma linguagem clara para nomear o sacrifício, apenas pressentimos, de modo difuso e persistente, que algo essencial continua sendo oferecido todos os dias, em quantidade suficiente para que a normalidade siga intacta, enquanto a violência, agora doce e estrutural, se confunde perigosamente com a própria ideia de ordem.



Brilhante! O capitalismo precisa destruir para sobreviver.