Dos canibais
de Montaigne a egos inflados e murchos
Quando Montaigne se enveredou lá pelos seus ensaios talvez não imaginasse que uns 500 anos depois o povo estaria elucubrando sobre a expressão do Eu e todas as problemáticas que envolve isso. No comecinho do doutorado houve um momento de reflexão de qual o porquê de os textos acadêmicos como um todo estarem despidos do seu sujeito autoral. Ora, como não pensar que só chegou a esse ponto por causa de toda uma tradição de ocorrer uma supressão das subjetividades, da censura ideológica de quase 25 anos, de autocensuras mais ou menos impostas e da nossa mania de nos limitarmos a ser meras franquias intelectuais dos polos centrais do conhecimento até quando, supostamente, assumiriam posturas descolonizadoras e decoloniais.
Mas eis que devaneio, que minha intenção inicial era totalmente outra. Lá pra agosto de 2024, quando comecei a newsletter eu fiquei pensando em como eu, um feroz adepto de algo que poderia chamar de egocídio, iria imprimir fôlego às coisas que iria escrever por aqui? Em um mundo em que pululam conteúdos interessantes e com engajamento, que raios eu estava fazendo da minha vida.
Lembro de um poema de João Cabral de Melo Neto:
Dúvidas apócrifas de Marianne Moore
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso,
e sempre impudor?
A coisa de que se falar
Até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo
Impuramente, a quem dela quer falar?
Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?
Eu até fiz um poema meio que parafraseando este, meio que inspirado, meio que amaldiçoado por JCMN, chamado Dos canivetes:
para quê, Eu?
línguas e perdições
sim, isso quero
como quero uma espinha
de peixe entalada
na minha garganta
no meu destino
na impureza dos meus corações
para quê, falar?
se a pena escreve
e se sente
dó
ré
minhas músicas sentem pena
e vão para trás
porque não são nem música
nem comiseração
para quê, saber?
se os ossos se desmancham
o evitar-se é inútil
o extremo branco dos dentes
restam-se
não resto
restam canivetes e facas
cortam as línguas
os Eus
evisceram os peixes tortuosos
do horizonte oleoso
cortam meu pudor
meu destino
dúvidas
bisturis e aleluias
Enfim.
Nessa correria pré-carnaval, de esgotamentos precoces e estranhamentos frente ao caos que eu já encarei de maneira mais corajosa, fiquei pensando em n assuntos para escrever e fiquei pensando na torrente de informações que vem aos montes e, se a gente vacilar, como diriam os antigos, o cachimbo vai cair. Ora, paradoxalmente a gente está no auge da expressão das subjetividades, mas a conteúdo que vemos por aí é só uma repetição quase infinita das mesmas coisas, até parece que é o império do já-visto. Vai até que seja já.
Se em Dos canibais Montaigne se esforça por deslocar o olhar, fazendo-nos perceber que a barbárie quase sempre habita o centro que julga o outro, talvez hoje o exercício precise ser refeito em chave menos etnográfica e mais discursiva. Já não se trata apenas de quem devora quem, mas de como se devora. Há uma canibalização contemporânea que não produz força, nem reinvenção, nem sequer alteridade, apenas a mastigação interminável do mesmo. Não é a antropofagia que metaboliza o outro para criar algo novo, mas uma ruminação estéril, em que conceitos, afetos e posições políticas são repetidos como mantras, esvaziados de risco e de corpo. O que se consome não é o outro, é o eco, e o resultado não é potência, mas anemia.
Daí que até penso na loucura que é imaginar bilionários literalmente comendo crianças, por sentirem-se autorizados, porque em sua instância de subjetividades, o poder maior do indivíduo financeirizado é tornar até a perversão artigo de luxo.
É aqui que Montaigne volta a incomodar, porque seu gesto não era o de celebrar o outro exótico, mas o de expor a miséria bem-comportada do mesmo. A canibalização ruim dos discursos empobrece porque elimina o conflito, a negatividade, o risco de falar a partir de um lugar que não seja imediatamente reconhecível. Tudo vira digestível demais, palatável demais, previsível demais. Contra isso, talvez reste insistir no corte, no canivete, na espinha atravessada na garganta do texto, essa recusa em transformar pensamento em produto e experiência em vitrine. Não para salvar o Eu, mas para devolvê-lo à sua condição mais incômoda: a de problema, e não de marca.


